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domingo, 30 de agosto de 2015

DO GRUPO DE EXTERMÍNIO

Miguel Angelo 
forumhiphopeopoderpublico.blogspot.com.br

Nós geralmente pensamos que a disciplina militar é uma questão de só seguir ordens sem ter que pensar a respeito, obedecendo regras. Você não pensa, você cumpre o seu dever. Não é tão simples assim. Se fazermos isso, apenas nos tornamos máquinas. Tem que haver algo a mais. Pegando qualquer um dos grandes cabeças dos grupos de extermínio como Telhada, Conte Lopes e até uns mais "clássicos" como Ernesto Milton Dias, Sérgio Fernando Paranhos Fleury, Correinha, todos os medalhistas da Rota, Força Tática, DEIC, DENARC, DAS e por ai vai, você se irá se deparar com pessoas que se enquadram perfeitamente na ideologia do que seria o "cidadão de bem".
Torturar, estuprar, consumir quilos de drogas e toda aquela cartilha que já bem conhecemos são como nacos de gozo que funcionam para subornar esses homens para que se mantenha a coesão da tropa, não que essas práticas sustentem a tropa, a máquina militar, mas trata-se de uma regra que vale para comunidades, para todas as comunidades humanas, evidente que a forma é a mesma, mas seu conteúdo é sempre distinto. Esses soldados precisam de regras implícitas não escritas, as quais nunca são publicamente admitidas, mas são absolutamente cruciais para a identificação do grupo.
O conteúdo da ação dos militares não é algo que vá contra sua cultura interna, ela é exatamente sua impressão no outro, no inimigo externo, no povo preto. Entre os nacos de gozo que funcionam como maneira de garantir a coesão dos militares (estando ou não na forma de grupos de extermínio, até por que o próprio grupo de extermínio é uma pré-condição para a construção de tropas militares) está o extermínio dessa construção social e histórica que é raça negra e não poderia ser diferente tendo em vista esse aparelho repressivo do Estado é fortemente atravessado pelo etnocentrismo ocidental.
MAIS E MAIS NORMAS QUE BUSQUEM CONTROLAR ESSES MILITARES NÃO SÃO ÍNDICES DE QUE ESTAMOS CONSEGUINDO LIBERTAR O POVO PRETO. É A FORMA, AS FORMAS, ELAS SIM QUE PRECISAM SER ATACADAS E DEMOLIDAS.
Não é apenas nossa falta de consciência quanto a opressão vivida que reduz nossas lutas em disputa por migalhas, mas sim a falta de consciência quando as vitórias possíveis. É mais do que necessário operar uma perspectiva nova quanto a orientação para os fatos, uma perspectiva nossa, de povo. Afinal, uma pessoa oprimida está deslocada quando opera de uma localização centrada nas experiências do opressor. Cabe agência aos africanos da ligação tanto interna como externa para ousar mais, lutar mais, tornar a reivindicação, o desejo do africano, algo insuportável para a ordem existente. Precisamos nos localizar na psique, no subjetivo, na cultura e na história.