quinta-feira, 3 de abril de 2014

Fala do CA na Mesa de Abertura da Atividade "Dia 31 de Março ou 1° de Abril? Um Golpe de Estado Contra o Povo".
Miguel Angelo
Hoje o Centro Acadêmico Emilio Ribas, a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e a Associação Paulista de Saúde Pública dão um passo no sentido da Justiça de Transição, logo nossa participação no processo de construção da Comissão da Verdade da APSP nada mais é um dever e uma obrigação política, cultural e moral como diria Marilena Chauí. Um centro acadêmico que luta pelo SUS tem esse dever e essa obrigação.
Circulei pelo menos dois anos pelos mais diversos setores do movimento estudantil e ontem, quando comecei a passar para o papel o que venho trabalhando em minha militância no Fórum de Hip Hop e no Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica, tive certeza que deveria afirmar aqui que minha abordagem não vai totalmente de encontro com o discurso desse movimento.
Sou daquele tipo de pessoa que quando anda na quebrada com os amigos escuta da PM “Desfaz esse bolinho e vai pra casa”. Que participa de uma militância que anualmente me custa uma ameaça de morte e o telefone grampeado, Botazzo e Adriano Diogo que acompanham nossa pauta sabem que casos assim não são exceção. O Vereador Natalini acompanhou de perto o custo que tivemos quando nos posicionamos contrariamente a uma homenagem que um ex-PM, hoje vereador, propôs as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, aquela mesma que têm como lema “Deus Cria e a Rota Mata”. Ou seja, sou daqueles de reconhecem a importância das manifestações pelo passe livre e as atuais contra a copa, porém, antes disso, sou um daqueles que não deixa esquecer que 20 mil jovens pretos morrem todo ano nesse país, que 70% de um sistema carcerário de mais de 500 mil é formado por jovens pretos periféricos, que aqueles laudos do IML com um T em vermelho hoje continuam sendo falsificados para encobrir o extermínio nas periferias que são praticados em sua maioria por PM’s, cidadãos fardados que estão nas ruas para garantir nossos direitos sociais com tiros de .40, no maior estilo Conte Lopes, dois no abdômen e um na cabeça.
Hoje é assim, e no começo do mês um companheiro da Ação Educativa me entregou um relatório de recentes ações da PM no Jardim Elba - zona leste. Vou ler alguns depoimentos aqui para ilustrar um pouco mais o custo da não justiça de transição para quem é preto, pobre e periférico nesse país, é importante frisar também que após todas as violações denunciadas pela população a Corregedoria da PM alegou que os policiais estavam fazendo o trabalho deles.
“Moradora há vinte anos na comunidade relata que a padaria, único comércio que tem no bairro, não abre por ordem da PM. Os policiais passam apontando armas ameaçando metralhar tudo caso não se cumpram as ordens, além das ameaças de agressão física”.
“Uma outra senhora informou que seu vizinho tem um problema mental, não podendo falar direito, ele teve sua casa invadida pela polícia. Os PM’s perguntaram se ele tinha passagem e começaram a espanca-lo. Está internado na UTI em decorrência dos ferimentos. Uma vizinha que estava gestante perdeu os gêmeos com a cena’’.
“A PM chega apontando a arma e dando tapa quando estávamos na frente de casa fazendo um churrasco. Dias antes os mesmos policias me jogaram no rio”.
“A PM veio aqui na comunidade e perguntou se nós já vimos caixões de crianças saindo daqui. Disse que se pegarem crianças na rua fora do horário vão matar”.
Eis o que a Corregedoria da PM chamou posteriormente de procedimento normal. Eis o dia a dia de viaturas com a DJM-6233, DJM-4622, M-19306, M-19038 e M-19028.